3. BRASIL 3.4.13

1. O MINISTRO DA ELEIO
2. A APOSTA DOS CRIMINOSOS
3. TUDO RESOLVIDO
4. BASTA UMA VENTANIA
5. DERAM OURO AO DEPUTADO

1. O MINISTRO DA ELEIO
Mais poderoso e influente que a maioria dos assessores da presidente Dilma Rousseff, o marqueteiro Joo Santana promove a fuso das polticas de governo com estratgia de campanha  e vice-versa.

     O jornalista Joo Santana exerce um papel fundamental no cotidiano do atual governo. Ele  o idealizador da bem-sucedida campanha da reeleio de Lula em 2006 e alquimista com o dom de transformar "postes" em candidatos vitoriosos, feitos notrios na eleio de Dilma Rousseff  Presidncia da Repblica e na conduo de Fernando Haddad  prefeitura de So Paulo no ano passado. Ningum discute sua eficincia na construo da imagem de um postulante a cargo pblico. Comete um erro fatal quem menospreza sua precisa leitura dos hemisfrios invisveis das massas eleitorais. Santana  capaz de mapear os pontos fracos dos adversrios com a preciso de um acupunturista. So habilidades inquestionveis que ampliaram sua contnua influncia na administrao Dilma mesmo depois de fechadas as urnas, a ponto de ele ter se tornado um poderoso ministro sem pasta, um conselheiro poltico sem partido, o estrategista sem gabinete e, mais recentemente, o principal roteirista das aes do governo. 
     Na ltima segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff desembarcou de um helicptero em Serra Talhada, cidade de 90.000 habitantes no serto do Paje, em Pernambuco. Sob um sol inclemente de mais de 35 graus, ela acenou para a multido que a aguardava, mandou beijos, afagou crianas e fez coraezinhos com as mos. Abraou prefeitos e vereadores e entregou a eles chaves de tratores, escavadeiras e caminhes doados pelo governo federal para o combate  seca. Minutos depois, subiu ao palanque ao lado do governador de Pernambuco e virtual candidato a presidente pelo PSB, Eduardo Campos, antigo aliado que se tornou o adversrio do momento. Em um discurso longo, disparou petardos na direo do anfitrio, cobrando, sem ser explcita, lealdade e condenando, tambm sem ser explcita, a ambio presidencial. Pouco depois, voou ao Rio de Janeiro, onde participou de uma missa em memria das vtimas das enchentes. Nenhum movimento da presidente  gestos, palavras e aes  foi fruto de improviso. Tudo foi exaustivamente treinado e discutido previamente com Joo Santana, a partir do momento em que as pesquisas encomendadas pelo marqueteiro detectaram que uma possvel candidatura do governador pode pr em risco a supremacia eleitoral do PT no Nordeste, que vem garantindo vantagens ao partido desde a primeira vitria de Lula, em 2002. 
     Joo Santana  o responsvel por promover a fuso das polticas de governo com a estratgia da campanha de Dilma  reeleio em 2014.  consenso entre os estrategistas oficiais que a presidente pode conquistar um novo mandato com relativa tranquilidade, desde que chegue s urnas com a economia nos trilhos. Da a interferncia cada vez maior do marqueteiro no planejamento das aes oficiais. As pesquisas da equipe de Santana mostram, por exemplo, que o governador Eduardo Campos  uma unanimidade em Pernambuco, situao praticamente impossvel de reverter. A estratgia  evitar que parte dessa popularidade extravase para outros estados do Nordeste. Orientada pelo  marqueteiro, Dilma vai passar ao menos um dia por semana longe de Braslia, preferencialmente em algum estado nordestino. Nesta semana, a presidente estar em Fortaleza lanando um pacote de combate  seca, considerada a maior em setenta anos, com potencial para abalar sua imagem de boa gestora. As aes sero seguidas por uma ampla campanha publicitria. A ofensiva na Regio Nordeste  a mais explcita demonstrao dessa convergncia de interesses, mas no a nica. 
     Em janeiro, Dilma anunciou em rede nacional de rdio e TV a reduo da tarifa de energia eltrica. A deciso de fazer o pronunciamento partiu do marqueteiro. O mesmo ocorreu com o anncio, novamente em rede de TV, da diminuio dos impostos sobre os produtos da cesta bsica. Nesse caso, Joo Santana escolheu at a data: o Dia Internacional da Mulher, j que, em sua avaliao, o projeto agradaria s responsveis pelas compras familiares.  ingenuidade pensar que o jornalista seja um formulador de polticas pblicas, mas seria tambm tolo no entender o potencial de desastre a que o governo se expe quando coloca a propaganda como prioridade na definio de suas aes. No incio do ano, houve uma reunio entre representantes das distribuidoras de energia com tcnicos da Agncia Nacional de Energia Eltrica (Aneel), responsvel por fiscalizar e traar as polticas para o setor. Os representantes das empresas estavam preocupados com os altos custos e os prejuzos derivados das medidas anunciadas pelo governo. Ficou combinado que aes para aliviar os prejuzos seriam anunciadas em breve. Mas havia uma condio: as empresas deveriam silenciar sobre os eventuais prejuzos. A orientao foi passada pelo telefone por Joo Santana. 
     Apesar do treinamento, Dilma, como todo poltico, comete gafes. Na semana passada, na frica do Sul, a presidente comentou que no sacrificaria o crescimento econmico para conter a inflao. A declarao foi interpretada como um sinal de lenincia com a inflao e provocou turbulncia no mercado financeiro. Dilma explicou que fora mal-interpretada. No mundo empresarial, se o produto for de m qualidade, a eficincia dos anncios s vai apressar sua sada do mercado. Na propaganda oficial esse efeito se manifesta com o sinal invertido   quanto pior o governo, mais ele vai se apoiar na propaganda de seus feitos reais ou irreais. Hoje, h no ar trs campanhas publicitrias do governo feitas a partir de escolhas do marqueteiro: uma fala sobre o fornecimento gratuito de remdios, outra explica a reduo da tarifa de energia e a ltima  sobre segurana nas estradas. H trs agncias contratadas por licitao pela Secretaria de Comunicao Social da Presidncia da Repblica (Secom) para cuidar da divulgao dessas aes. Nenhuma delas tem ligao formal com Joo Santana, mas todas agem sob sua orientao. Os ltimos pronunciamentos da presidente, por exemplo, foram produzidos pelas agncias, mas passaram pelo crivo de Santana, tambm responsvel pela redao do texto e pela produo. O mesmo ocorre com as campanhas publicitrias, que s so enviadas a TVs, rdios, jornais e revistas aps o aval do marqueteiro. 
     O jornalista  muito bem remunerado para dar sugestes e responder s questes de seus clientes. Mas h uma pergunta que ele se recusa a responder: quem paga pelo seu trabalho com a presidente? Oficialmente, Joo Santana no recebe nada do Palcio do Planalto. Ele j fez campanhas na Venezuela, Repblica Dominicana, Argentina e em Angola. No Brasil, tem apenas um cliente conhecido: o PT. Em 2010, o marqueteiro cobrou 50 milhes de reais pela campanha de Dilma.  possvel que esses gastos embutam a consultoria ao longo do governo. " preciso regulamentar a atuao desse tipo de profissional. Todo hibridismo entre o pblico e o privado  condenvel", avalia Clovis de Barros Filho, professor de tica da USP. Ao manter um ministro da Propaganda com tanta influncia sobre decises administrativas, Dilma corre o risco de sentar na cadeira presidencial com o mesmo mpeto com que vem subindo nos palanques com vistas s eleies de 2014. Cada inaugurao se transforma em um comcio. Cada projeto de alcance social vira um pedido de voto. So interpretaes naturais sobre os atos de quem ocupa um cargo e disputa a reconduo. A intensidade propagandstica imprimida pelo governo, porm,  indita na vida brasileira. Ela confunde partido com governo e, assim, corre o risco de iludir mais do que informar. 

ELE DIRIGE E ELA ATUA
Desde o incio do ano, todos os atos de governo da presidente Dilma Rousseff  de pronunciamento oficial a encontro com desafeto poltico  se tornaram peas de sua campanha  reeleio, dirigidas pelo marqueteiro Joo Santana e  produzidas por sua equipe.

DIRETO AO ALVO -  No Dia Internacional da Mulher, Dilma anunciou a reduo da cesta bsica. Pesquisa de Santana mostrou que a ao atrairia votos femininos.
NA TV E NO BOLSO - Em janeiro, Dilma anunciou em rede nacional de rdio e TV a reduo de 18% na tarifa de energia. Joo Santana dirigiu e editou o pronunciamento.
GUERRA FRIA - Em Pernambuco, Dilma fez um discurso com ataques duros, mas sutis, ao ex-aliado Eduardo Campos. O teor foi discutido com Santana.
OBRA SOB MEDIDA - Dilma inaugura projeto de irrigao em Alagoas: pesquisa mostra que a seca pode abalar seu prestgio no Nordeste.


2. A APOSTA DOS CRIMINOSOS
Condenados a penas de priso por corrupo e formao de quadrilha, os mensaleiros do PT agora acreditam que a impunidade vir pela escolha de um novo ministro do STF simptico  causa deles. Seria um tapa na cara da opinio pblica brasileira.
DANIEL PEREIRA

     O Supremo Tribunal Federal (STF) precisou de 53 sesses plenrias e 138 dias para condenar, no ano passado, 25 dos 38 rus do processo do mensalo. No maior julgamento de sua histria, aplicou penas que chegam a quase 270 anos de priso e multas de 22 milhes de reais. Considerada um divisor de guas na luta contra a impunidade que beneficia os criminosos de colarinho-branco, essa deciso ainda no foi executada. Mas ser? Nos bastidores da corte, um grupo de ministros trabalha para que isso nunca ocorra. A impunidade passa pela indicao de um novo integrante para o STF simptico  tese da reduo das penas impostas aos mensaleiros. Isso livraria da priso em regime fechado o ex-ministro Jos Dirceu. Como se sabe, Dirceu foi condenado por ser o chefe da quadrilha que subornou parlamentares, no primeiro mandato do ex-presidente Lula, usando dinheiro desviado dos cofres pblicos. 
     Do ponto de vista tcnico, a esperana dos condenados se chama "embargos infringentes", recurso previsto no Cdigo de Processo Penal que permite aos rus reabrir os processos quando suas condenaes em tribunais no tiverem sido unnimes. O uso desse recurso no STF em casos de rus com foro privilegiado, sob a atual Constituio, seria algo indito. Por essa razo, os ministros precisaro decidir, antes de mais nada, se  cabvel extrapolar essa regra para a mais alta corte do pas. Os ministros esto divididos sobre essa questo. Portanto, no  de todo impossvel que o julgamento do mensalo seja reaberto para reexame das condenaes ou das partes em que houve divergncia. Os advogados dos mensaleiros esto prontos para pedir ao Supremo que receba e discuta os "embargos infringentes". 
     Uma deciso favorvel  reabertura do processo, certamente, repercutir muito mal perante a opinio pblica, que comemorou no ano passado a indita condenao  priso de gente poderosa no Brasil. Perto da reao dos brasileiros ao tomar conhecimento de que o processo ser reaberto, as questes de jurisprudncia so a parte mais branda do caso. Os defensores acreditam que conseguiro derrubar a condenao por formao de quadrilha imposta a Dirceu, ao ex-tesoureiro do PT Delbio Soares e ao ex-presidente petista Jos Genoino, entre outros. Se isso ocorrer mesmo, a pena de Dirceu cair de dez anos e dez meses para sete anos e onze meses. Isso significa que ele se livrar da cadeia em tempo integral, sendo recolhido ao crcere apenas para passar a noite. No caso do deputado Jos Genoino, a pena de priso cairia de seis anos e onze meses para quatro anos e oito meses, deciso que impactaria o nmero de dias que ele dormir na priso. 
     O regimento interno do STF prev a possibilidade de embargos infringentes quando h quatro votos contrrios  condenao  exatamente a quantidade obtida pelos petistas no caso da formao de quadrilha. Ocorre que o regimento interno  anterior  Constituio de 1988 e a uma lei de 1990 que regulamentou o andamento das aes penais nos tribunais superiores. A Carta e a legislao ignoraram o tema, que, no entanto, permaneceu no regimento interno do STF. Vale o regimento ou se considera que, ao ignorar a existncia dos embargos infringentes, a Constituio e a lei esto dizendo que eles no so cabveis?  essa a questo que divide o STF agora. "No faz sentido entender que a norma prevista no regimento interno subsiste  lei", pondera um ministro. Outro ministro lembra que o acolhimento dos embargos infringentes resultaria em uma anomalia gritante. Ela pode ser resumida assim: com apenas seis votos, o STF pode declarar a inconstitucionalidade de regras aprovadas no Congresso Nacional, mas nem com sete votos pode condenar definitivamente um ru de ao penal quando este obteve quatro votos a favor de sua absolvio. Ou seja, nessa hiptese, um ru teria mais fora jurdica do que um Poder da Repblica. 
     Esses argumentos no desanimam os advogados dos rus do mensalo. Eles dizem que a questo ainda est aberta e espalham que quatro ministros j concordam com a apresentao de embargos infringentes. Para formarem a maioria no plenrio, portanto, os advogados precisariam conquistar o apoio de Teori Zavascki, ministro que tomou posse no fim do ano passado e que no participou do julgamento do mensalo, e do futuro ministro que ainda ser indicado pela presidente Dilma Rousseff para a vaga aberta pela aposentadoria de Carlos Ayres Britto. Dilma deve anunciar sua escolha nos prximos dias. H muita especulao sobre quem ser o 11 integrante do Supremo Tribunal Federal. A claque dos mensaleiros anda a propagar que o STF precisa de um tributarista ou de um processualista, quando no fundo quer mesmo um petista. Joaquim Barbosa, presidente do STF, no esconde seu desagrado com o lobby poltico disfarado de preocupao tcnica. Ele fez chegar  presidente Dilma Rousseff o seguinte conselho: "O STF no precisa de tributaristas ou criminalistas. Precisa de estadistas". 


3. TUDO RESOLVIDO
A polcia ambiental interditou o abatedouro clandestino em Vazante que tinha o ministro da Agricultura como cliente. J em Braslia...

     Uma reportagem publicada na edio passada de VEJA revelou que na cidade de Vazante, no interior de Minas Gerais, funcionava um abatedouro clandestino que tinha entre seus clientes um personagem ilustre  o fazendeiro Antnio Andrade, recm-empossado ministro da Agricultura. Na ltima tera-feira, atendendo a um pedido do Ministrio Pblico estadual, policiais do Meio Ambiente interditaram o lugar. Sem autorizao para operar, o estabelecimento abastecia os aougues e supermercados da regio, sacrificando bois com requintes de crueldade e processando a carne em condies medievais de higiene. O proprietrio do matadouro, Rogrio Martins, foi autuado e s no foi preso porque no houve flagrante. Quando os policiais apareceram, o abate, que acontece durante a madrugada, j tinha terminado. As autoridades mineiras, portanto, fizeram o que podia ser feito. Foram ao local, constataram as irregularidades. fecharam o estabelecimento e acusaram o proprietrio de crime ambiental. Tudo resolvido como mandam as leis e os costumes civilizatrios. Mas s em Vazante. 
     Em Braslia, que fica a 350 quilmetros do municpio, silncio absoluto. O ministro Antnio Andrade limitou-se a emitir uma nota na qual negou mais uma vez que mantivesse negcios com o abatedouro clandestino, apesar das evidncias. Ele disse que  criador de gado leiteiro, s negocia com grandes frigorficos e, como produtor rural, prima pela legalidade e respeito s normas sanitrias. Durante a fiscalizao da semana passada, Rogrio Martins reafirmou ter abatido gado de Andrade em seu estabelecimento clandestino. Mais que isso: em apenas um ms, em dezembro do ano passado, comprou 22 reses na fazenda do ministro, que foram processadas e distribudas no comrcio de Vazante. O dono do matadouro garante que guarda os comprovantes do negcio. Um dos poucos rudos que se ouviram partiu do lder do PPS na Cmara, deputado Rubens Bueno, que pediu a criao de uma comisso especial para investigar o caso. 
     Em 2011, o ento ministro da Agricultura, Wagner Rossi, foi demitido pela presidente Dilma Rousseff, entre muitas denncias cabeludas, por viajar no avio de um empresrio. Era o ano da faxina administrativa. Desta vez, a parceria do ministro com um abatedouro clandestino nem sequer foi motivo de admoestao. O Brasil ocupa o posto de maior produtor de carne do mundo. Deve ostentar o mesmo ttulo no quesito clandestinidade. Estima-se que 30% da produo bovina aporte em estabelecimentos deletrios como o de Vazante. Segundo dados do SUS reproduzidos pela Associao Brasileira de Frigorficos, 80.000 pessoas foram internadas nos ltimos cinco anos por doenas provocadas pelo consumo de carne contaminada. O ministro Antnio Andrade, na nota que distribuiu, reafirmou seu compromisso de capacitar fiscais para reprimir o abate clandestino. Tudo resolvido. 
HUGO MARQUES


4. BASTA UMA VENTANIA
O estdio Engenho, no Rio de Janeiro,  interditado por causa de uma falha estrutural que existe desde a inaugurao e poderia at ter matado milhares de pessoas.

     O Rio de Janeiro no tem hoje nenhum estdio capaz de acomodar o grande pblico esperado nos megaeventos que vai sediar. O nico em atividade, o Joo Havelange, ou Engenho, solitrio legado dos Jogos Pan-Americanos de 2007, acaba de ser interditado pela prefeitura porque  pasmem  a cobertura metlica que envolve a estrutura, projetada para acomodar 46.000 pessoas, estava sob o risco de colapso. Segundo um relatrio feito pela empresa alem SBP, a pedido do prprio consrcio responsvel pela obra, se ficasse exposta a ventos de mais de 60 quilmetros por hora (uma mera ventania de vero), a imponente estrutura em arcos poderia vir abaixo. Pior: o problema paira sobre o Engenho desde que o estdio foi inaugurado, em 2007. 
     Um parecer tcnico mais detalhado vai levar pelo menos um ms para ficar  pronto, mas quem conhece o assunto no tem dvida: trata-se de uma mistura de erro de clculo com muita pressa no fim para compensar a morosidade ao longo de toda a obra  um padro brasileiro nesse tipo de empreitada. Diz o engenheiro Antonio Eullio, especialista em grandes estruturas: "Tudo indica que houve um grave erro de projeto. Infelizmente, gastamos pouco tempo no Brasil com os clculos e tempo demais na obra, que sempre precisa ser acelerada a um custo altssimo". O estdio Man Garrincha, de Braslia, s no enfrentou problema semelhante porque a Escola de Engenharia de Gois apontou antes a inadequao de alguns materiais  mas a obra, orada em 696 milhes de reais, j bate em 1,3 bilho. A reforma do Maracan pulou de 750 para 940 milhes, e 6500 operrios se desdobram agora para conclu-la para a Copa das Confederaes. J o Engenho custou aos cofres pblicos 376 milhes de reais  seis vezes o previsto. 
     O problema no estdio carioca ocorreu quando, j no fim da obra, os suportes que sustentavam os arcos metlicos foram removidos, e eles se deslocaram. Isso era esperado, mas no na proporo que se viu: o deslocamento foi 50% maior do que o previsto no projeto do engenheiro Flvio D'Alambert, que tambm assina a cobertura dos estdios de Fortaleza e Cuiab. Um laudo do prprio D'Alambert concluiu no haver risco algum; outro, da certificadora portuguesa TAL, apontou perigo s sob ventos fortssimos. J o terceiro parecer, da SBP, foi categrico: sem reparos, poderia ocorrer ali um acidente de grandes propores. Que sirva de alerta para que o to anunciado legado dos grandes eventos que vm por a no vire p. 
GABRIELE JIMENEZ


5. DERAM OURO AO DEPUTADO
Documento acusa chefe do Ministrio Pblico do Rio de avisar Eduardo Cunha, do PMDB, sobre inqurito que apurava sua ligao com uma quadrilha de sonegadores
LESLIE LEITO E THIAGO PRADO

     Est para chegar s mos do procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, um documento de 35 pginas que traz  luz uma histria estarrecedora. Trata-se de um relatrio secreto da Polcia Civil do Rio de Janeiro escrito dias depois da sbita interrupo das investigaes que apuravam o trfico de influncia do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e do filho do ministro de Minas e Energia, senador Edison Lobo Filho (PMDB-MA), em prol de um esquema milionrio de sonegao fiscal. Ele era operado, segundo a polcia, pelo empresrio Ricardo Magro, dono da refinaria de Manguinhos, na Zona Norte carioca. O relatrio, ao qual VEJA teve acesso, mostra que, por oito meses, a polcia seguiu, filmou e grampeou essas e outras dez pessoas na rbita de Magro. Os investigadores flagraram conversas comprometedoras e at encontros em viagens e shows, que no deixam dvida sobre o estreito elo entre os dois polticos e o empresrio. O material subsidiou um inqurito contra o grupo que est agora sob anlise do Supremo Tribunal Federal. Tal investigao seguiu de vento em popa at 2009, quando de repente paralisou. No havia mais como avanar. De uma hora para outra, os suspeitos no se falaram mais ao telefone. A polcia j sabe o motivo: o grupo foi alertado sobre o grampo pelo ento procurador-geral do Ministrio Pblico (MP) do Rio, Cludio Lopes. 
     Os indcios de que Lopes ajudou Cunha, Lobo e Magro a escapar do cerco policial so contundentes. Segundo o relatrio, a armao teve incio no dia 18 de setembro de 2009, quando o procurador pediu ao promotor David Francisco de Faria, no comando da Coordenadoria de Combate  Sonegao Fiscal do MP estadual, que lhe entregasse os autos do inqurito ainda em curso. O promotor chegou a desabafar com policiais: dizia nunca ter recebido ordem semelhante em uma dcada de carreira. Mesmo assim, juntou a papelada, que enviou ao chefe no dia 21. Pouco depois de receb-la, o procurador-geral telefonou de seu celular para Eduardo Cunha. Embora no tenha sido gravada, a ligao ficou registrada, s 17h54, na conta telefnica do deputado. Mais tarde, Cunha seria visto adentrando a sala do procurador. Ao sair de l, ligou para Magro, s 20h51, sugerindo que se comunicassem via MSN. Passados dois meses, o promotor David Francisco deixou o cargo. O relatrio da polcia informa que Eduardo Cunha teve, sim, acesso aos autos do inqurito e  soube da interceptao telefnica. Em outras palavras: o chefe do MP, a quem cabe proteger os interesses do estado, entregou o ouro ao deputado. 
     O dono da refinaria de Manguinhos  figura polmica. Em 2007, depois de ter sido proibido de atuar em So Paulo por burlar o Fisco, uma CPI da Assembleia Legislativa do Rio concluiu que uma de suas distribuidoras de combustveis havia sido a principal beneficiria de um esquema de sonegao facilitado por regras de compensao de ICMS criadas pela ex-governadora Benedita da Silva. Em 2008, Ricardo Magro comprou a refinaria de Manguinhos da multinacional espanhola Repsol e chamou para administr-la justamente o ex-secretrio de Fazenda de Benedita, Marcelo Sereno, tambm ex-assessor de Jos Dirceu na Casa Civil. A refinaria deixou de pagar ao estado 406 milhes de reais em impostos   uma das vinte maiores devedoras do Rio. Desde 2009, Magro tenta pagar a dvida com ttulos precatrios emitidos pelo prprio governo e comprados com desgio diretamente dos credores  uma transao, no mnimo, estranha. 
     Ao longo de sua trajetria, o empresrio selou laos estreitos com polticos e funcionrios da Agncia Nacional do Petrleo (ANP). O deputado Eduardo Cunha pertence ao crculo mais prximo. Os dois chegavam a conversar at nove vezes ao dia  sempre sobre negcios. Em um desses dilogos, de 25 de agosto de 2009, Magro pediu a Cunha que o ajudasse a convencer a petroqumica Braskem (da qual a Petrobras  scia) a vender cargas de gasolina a Manguinhos. Ele suspeitava que a empresa estava favorecendo um concorrente. "Os caras esto me arregaando", dizia Magro. Cunha prometeu falar com "os caras". No dia seguinte, deu o retorno: "O menino j tem notcias l da Braskem". 
     Outro que integra o influente rol dos amigos de Magro  Csar Ramos Filho, funcionrio da ANP que chegou a ser cotado para a Superintendncia de Abastecimento por indicao do senador Edison Lobo Filho. No deu certo porque se descobriu que ele j havia sido acusado de ligao com uma mfia de adulterao de combustveis, e outro apadrinhado do senador foi guindado ao cargo. Em 15 de setembro de 2009, Magro, Lobo e Ramos reuniram-se em Braslia. No dia 17, o empresrio levou a famlia para a festa de aniversrio do senador em Angra dos Reis,  qual tambm Ramos compareceu. Na volta, os trs esticaram com as esposas num show do Blue Men Group. O encontro foi o ltimo antes de o caso ir para o STF. Magro, Cunha e Lobo juram inocncia. Lopes, cujo mandato terminou em 2012, tambm, mas no explica o que falou ao deputado em seu gabinete. O procurador-geral da Repblica pode agora process-lo por vazamento de informao sigilosa. Lopes periga ser punido bem antes dos outros.


